Como usamos o ChatGPT no design de produtos digitais

O método que a Duplo D usa para colocar o ChatGPT dentro do design de produto: em que etapa entra, como escrevemos os prompts e o que nunca vai para lá.

UX Design

Por Daniel Skroski11 min de leitura

A pergunta que a gente mais ouve sobre ChatGPT em projeto de produto é a errada. Não é “o que ele consegue fazer”. É “onde ele pode entrar sem estragar o trabalho”.

Design de produto é uma sequência de decisões que se apoiam umas nas outras. Se uma delas for tomada com base em texto plausível e sem lastro, tudo o que vem depois herda o erro, e ninguém percebe até a tela estar no ar. Por isso o método importa mais que a ferramenta.

Este artigo descreve o método que a Duplo D usa. Etapa por etapa, com o que entra, o que fica de fora, como a gente escreve o prompt, e os erros que já cometemos para não precisar cometer de novo.

Resumo em cinco linhas
• O ChatGPT entra em quatro momentos: ler material bruto, nomear coisas, gerar alternativas e revisar. Ele nunca decide.
• A regra que organiza tudo: use onde a saída é fácil de verificar, evite onde parecer certo é indistinguível de estar certo.
• O prompt que funciona tem cinco partes: papel, contexto real, tarefa, formato e limite. Faltando contexto, o resto não salva.
• Persona sintética serve para ensaiar roteiro, não para concluir nada sobre o seu cliente.
• Documento de cliente, base de contatos e credencial não vão para ferramenta pública. Quando a IA precisa dos seus dados, o caminho é outro.

01. A regra que decide tudo

Antes das etapas, uma regra única, e ela vale para qualquer ferramenta de IA generativa:

A regra

Use a IA onde conferir a resposta é rápido. Evite onde o texto errado se parece exatamente com o texto certo.

Um rótulo de botão você avalia em dois segundos. Um agrupamento de mil mensagens você confere abrindo uma amostra. Um resumo de entrevista você confere contra a transcrição. Nesses casos, o custo de errar é baixo e o de verificar também.

Agora o inverso: um dado de mercado que o modelo devolveu com número e fonte, uma citação de norma técnica, um argumento sobre o comportamento do seu público. Tudo isso sai com a mesma confiança e a mesma prosa bem construída, esteja certo ou completamente inventado. É aí que projetos tomam decisão errada com cara de decisão fundamentada.

Todo o resto deste artigo é aplicação dessa regra.

02. Etapa 1: ler o material que ninguém lê

Esta é a etapa em que o ganho é maior e o risco é menor, e por isso é sempre por onde a gente começa.

Todo cliente chega com mais material do que imagina. Conversas de WhatsApp de dois anos. Chamados de suporte. Avaliações de loja. Comentários em post. Planilha de motivos de cancelamento preenchida às pressas. Esse material responde perguntas que o cliente costuma pagar pesquisa para descobrir, e quase nunca é lido, porque ler mil itens é um trabalho que ninguém tem tempo de fazer.

O que a gente pede, em ordem:

Agrupamento com contagem. “Agrupe estas mensagens por assunto. Para cada grupo, dê um nome curto, a quantidade e três exemplos textuais.” A contagem transforma sensação em número, e os exemplos textuais permitem conferir se o grupo faz sentido sem reler tudo.

Separação entre problema e pedido. Cliente costuma pedir solução, não descrever problema. “Para cada item, separe o que a pessoa pediu do problema que ela estava tentando resolver.” Essa distinção sozinha já muda o escopo de muitos projetos.

Onde a pessoa desistiu. “Nestas conversas, identifique o momento em que o assunto morre sem resolução e o que estava sendo tratado ali.” É um mapa de atrito construído com material que a empresa já tinha.

Vocabulário real. “Liste os termos que os clientes usam para falar de cada assunto, na frequência em que aparecem.” É a matéria-prima da arquitetura da informação e do SEO, e quase sempre contradiz o vocabulário interno da empresa.

O que a gente confere sempre: abrir cinco itens de cada grupo e verificar se estão no lugar certo. Leva dez minutos e pega a maior parte dos erros de classificação.

O que a gente nunca aceita direto: a conclusão. Se o modelo diz “o principal problema é o preço”, isso é uma hipótese com aparência de achado. Frequência não é importância, e a queixa que aparece quatro vezes pode valer mais que a que aparece trezentas, se as quatro forem dos maiores clientes.

03. Etapa 2: nomear as coisas

Nomear é metade do design de produto e ninguém fala disso. O nome da seção, do plano, do status, do botão. Nome ruim gera dúvida, dúvida gera atendimento, atendimento gera custo.

É uma tarefa quase perfeita para IA: a saída é curta, a avaliação é imediata, e o volume ajuda. Pedir trinta nomes para uma seção custa segundos e a leitura da lista inteira leva um minuto.

O prompt que a gente usa tem uma característica: pede variação em eixos, não só quantidade.

Exemplo de prompt para nomes

“Preciso nomear a área do sistema onde o usuário vê o histórico do que ele contratou. O público é dono de pequena empresa, pouco familiarizado com jargão. Me dê 20 nomes divididos em quatro grupos: literais, orientados a ação, orientados ao resultado e coloquiais. Máximo duas palavras cada. Depois aponte quais podem ser confundidos com outra função comum de sistema.”

A última frase é a parte que mais serve. Pedir os riscos de confusão devolve algo que a lista sozinha não daria, e é exatamente o tipo de checagem que se esquece de fazer às cinco da tarde.

04. Etapa 3: alternativas de fluxo e de interface

Esta é a etapa mais mal compreendida. A tentação é pedir a tela pronta; o valor está em pedir os caminhos.

Antes de desenhar, a gente descreve o objetivo e as restrições e pede abordagens diferentes de resolver. Cinco caminhos para o mesmo cadastro: tudo em uma tela, dividido em passos, progressivo com o mínimo primeiro, conversacional, ou preenchido a partir de um dado que já existe. Cada um com o que ganha e o que perde.

Isso ataca o vício mais comum do ofício, que é apaixonar-se pela primeira solução. Quando explorar ficou barato, não explorar virou escolha, e escolha ruim.

Três coisas que a gente pede nesta etapa:

Os casos que quebram o fluxo. “Liste as situações em que este fluxo falha ou fica estranho.” O modelo é bom nisso porque leu muitos sistemas, e lembra do usuário sem sobrenome, do cadastro duplicado, do CEP que não existe. Não substitui a análise de quem conhece o negócio, mas cobre o esquecimento.

O texto de interface completo. Rótulo, ajuda, erro, estado vazio, confirmação, sucesso. Escrever tudo isso de uma vez, com tom definido, evita a colcha de retalhos que aparece quando cada tela é escrita em um dia diferente.

A versão para quem já sabe. Sistemas são desenhados para o primeiro uso e vividos no centésimo. “Como este fluxo ficaria para alguém que faz isso todo dia?” costuma revelar que metade das confirmações sobra.

O que a gente não pede: layout final. O modelo devolve a média do que existe na internet, e a média é a razão pela qual tantos produtos recentes se parecem. Direção visual sai do design system e da marca, não do prompt.

Vale uma observação sobre o que acontece com o time nesta etapa. Quando aparecem cinco caminhos na mesa em vez de um, a conversa entre designer e cliente muda de natureza. Deixa de ser “gostei” ou “não gostei” de uma proposta única e passa a ser uma comparação com critério: qual deles resolve o problema com menos passos, qual é mais barato de construir, qual envelhece melhor quando o catálogo dobrar de tamanho. Essa é a parte do trabalho que a ferramenta não faz e que ela torna possível fazer com mais frequência, porque o custo de ter opções caiu.

E um cuidado que economiza retrabalho: as alternativas precisam ser realmente diferentes entre si, não cinco variações do mesmo desenho. Se as cinco chegarem parecidas, o problema costuma estar no pedido, que descreveu a solução em vez de descrever o objetivo e as restrições.


Tem um produto para desenhar ou reformular?

Pesquisa, interface, código e IA na mesma mesa. Conte em duas linhas o que precisa existir e a gente devolve as próximas perguntas certas.

05. Etapa 4: revisar antes de entregar

A revisão é a etapa em que a IA mais paga o próprio custo, porque revisar é um trabalho que exige atenção constante e que a atenção humana faz mal no fim do dia.

As passadas que a gente roda:

Consistência de termo. “Nesta lista de textos de interface, aponte onde o mesmo conceito recebeu nomes diferentes.” Descobre que a mesma coisa é “conta”, “perfil” e “cadastro” em três telas.

Mensagem de erro que ajuda. Toda mensagem de erro precisa responder o que aconteceu e o que fazer agora. Pedir a revisão sob esse critério pega as que só cumprem a primeira metade.

Leitura por perfil. “Leia como alguém que nunca usou um sistema parecido e liste onde travaria.” Não substitui teste com usuário, e vale para pegar o óbvio antes de gastar teste com o óbvio.

Acessibilidade de conteúdo. Texto alternativo de imagem, rótulo de campo, título de link fora de contexto. É verificação de padrão em volume, exatamente o formato certo.

E o limite honesto: a IA não revisa acessibilidade de verdade. Contraste real, ordem de foco no teclado, o que o leitor de tela anuncia. Isso se mede e se testa. Já encontramos um acordeão com todos os atributos corretos que simplesmente não abria pelo teclado, e ele passaria em qualquer revisão de texto.

06. Como a gente escreve os prompts

Existe muita mística sobre isso e pouca substância. O que funciona em projeto de produto tem cinco partes, e a diferença entre um resultado inútil e um resultado aproveitável quase sempre está na segunda.

  1. 1

    Papel e público

    Quem está falando e para quem. “Você está escrevendo para dono de oficina mecânica, pouco familiarizado com sistema.” Isso calibra vocabulário e nível de explicação melhor que qualquer instrução de tom.

  2. 2

    Contexto real, colado inteiro

    A parte que quase todo mundo pula. Cole o material: as mensagens, o fluxo atual, as restrições técnicas, o texto que já existe. Prompt curto sobre assunto complexo devolve resposta genérica, e resposta genérica é a queixa mais comum de quem acha que a ferramenta não serve.

  3. 3

    Tarefa única e verificável

    Uma coisa por vez. Pedir agrupamento, priorização e redação no mesmo prompt devolve as três feitas pela metade. E a tarefa precisa ter um jeito de conferir, senão não deveria estar sendo pedida.

  4. 4

    Formato de saída

    Tabela com estas colunas, lista com no máximo duas palavras por item, um parágrafo por grupo. Formato definido é o que permite comparar duas rodadas e o que evita a parede de texto que ninguém lê.

  5. 5

    Limite explícito

    “Se a informação não estiver no material que enviei, escreva ‘não consta’ em vez de supor.” É a instrução que mais reduz invenção, e a que mais gente esquece de dar.

💡 Quando a resposta vier ruim, o reflexo certo é olhar para a parte 2 antes de reescrever a pergunta. Nove em cada dez respostas genéricas são falta de contexto colado, não falta de técnica de prompt.

07. Os erros que a gente já cometeu

Aceitar a conclusão junto com a organização. O modelo organizou mil mensagens em doze temas, e o relatório saiu com a ordem de prioridade dele. A ordem estava por frequência, e a prioridade do negócio era outra. Hoje pedimos o agrupamento e fazemos a priorização na mão, com o cliente na sala.

Pedir a tela pronta cedo demais. Recebemos algo plausível, gostamos, e passamos a discutir aquilo em vez de discutir o problema. A ferramenta encurtou o caminho até uma resposta e encurtou junto a etapa de duvidar dela.

Confiar em número devolvido pelo modelo. Dado de mercado, percentual, referência de estudo. Sai com a mesma confiança do resto. Hoje, número que vai para documento de cliente vem de fonte que dá para abrir.

Deixar o tom escorregar. Vários textos de interface gerados em sessões diferentes, cada um com um registro. O sistema ficou com voz de três pessoas. A correção é escrever o guia de tom antes e colar em todo prompt de redação.

Perguntar sobre o próprio produto. O modelo não conhece o sistema do cliente. Quando a pergunta é sobre o que existe lá dentro, a resposta é invenção educada. Para isso o caminho é outro: uma base de conhecimento com os documentos reais, com busca e citação da fonte.

08. O que nunca vai para uma ferramenta pública

Regra escrita, conhecida por quem executa, não só por quem assinou o contrato.

Não vai: base de clientes, dado pessoal identificável, contrato, credencial de acesso, chave de API, código proprietário do cliente, número financeiro não público, e qualquer documento que o cliente classificou como interno.

Vai: material público, texto que a própria empresa publicou, conteúdo anonimizado, e material do cliente quando existe autorização escrita e a ferramenta usada é a adequada.

Anonimizar não é só trocar o nome. Contexto identifica: cidade pequena, cargo raro, valor específico. Quando o conjunto identifica mesmo sem o nome, o material não está anonimizado.

E a alternativa correta quando a IA precisa mesmo dos documentos da empresa: uma base de conhecimento privada, com busca vetorial, citação da fonte e controle de acesso por perfil. É outro projeto, com outro custo, e é o caminho honesto. Colar contrato em ferramenta pública para economizar esse projeto é o tipo de economia que aparece depois como problema.

09. Perguntas frequentes


1. Como usar o ChatGPT em design de produto sem perder qualidade?
Colocando ele nas etapas onde a saída é fácil de conferir: ler e agrupar material bruto, gerar nomes e alternativas, escrever texto de interface e revisar consistência. Fora disso, a regra é evitar. O ponto de controle é sempre o mesmo: se conferir a resposta demora mais do que fazer na mão, a ferramenta não deveria estar naquela etapa.

2. Dá para fazer pesquisa de UX com ChatGPT?
Dá para processar pesquisa, não para substituí-la. Ele transcreve, agrupa, encontra padrões entre fontes diferentes e escreve o primeiro rascunho do relatório. O que não dá é gerar o dado: pedir para ele fingir ser seu cliente devolve a média da internet, não o comportamento do seu público. Use para ler o material que você já tem e para ensaiar o roteiro antes de entrevistar gente de verdade.

3. Persona gerada por IA serve para alguma coisa?
Serve para testar um roteiro de entrevista e para antecipar perguntas antes de gastar o tempo de um usuário real. Não serve como fonte de conclusão. Uma persona sintética concorda com quase tudo, não tem pressa, não tem contexto e nunca abandona o fluxo, que é exatamente o oposto de um cliente.

4. Qual a estrutura de um bom prompt para design?
Cinco partes: papel e público, contexto real colado inteiro, uma tarefa única e verificável, formato de saída definido, e um limite explícito do tipo “se não estiver no material, escreva não consta”. A segunda parte é onde quase todo mundo falha: prompt curto sobre assunto complexo devolve resposta genérica, e a maior parte das reclamações sobre a ferramenta é falta de contexto colado.

5. O ChatGPT inventa informação?
Ele produz texto plausível, e plausível inclui coisas que não existem. Isso aparece com mais força em número, referência, citação de norma e qualquer fato sobre o seu produto específico, que ele não conhece. A defesa prática é pedir que ele marque o que não consta no material fornecido, e nunca deixar passar para documento de cliente um número cuja fonte não dê para abrir.

6. Posso colar documentos do meu cliente no ChatGPT?
Não em ferramenta pública, sem autorização escrita e sem saber o que a ferramenta faz com aquilo. Base de clientes, contrato, credencial, dado pessoal e código proprietário ficam de fora. Quando a IA precisa mesmo responder com base nos documentos da empresa, o caminho é uma base de conhecimento privada, com citação da fonte e controle de acesso por perfil.

7. IA substitui o teste com usuário?
Não. Ela antecipa o que é óbvio e por isso economiza o tempo do teste, que passa a investigar o que não é óbvio. Uma leitura simulada aponta onde alguém provavelmente travaria; um teste real mostra onde a pessoa efetivamente travou, e quase sempre é em um lugar que ninguém teria previsto.

8. Por que os textos de interface saem com tom diferente entre telas?
Porque foram gerados em sessões diferentes, sem um guia de tom colado no prompt. O modelo não guarda o registro que você usou ontem. A correção é escrever o guia de voz uma vez, com exemplos do que é e do que não é a marca, e colar esse guia em todo prompt de redação.

9. A IA consegue verificar acessibilidade?
Verifica a camada de conteúdo: texto alternativo ausente, rótulo de campo faltando, link cujo título não faz sentido fora do contexto. Não verifica o que importa depois disso: contraste real medido, ordem de foco no teclado, o que o leitor de tela efetivamente anuncia. Isso se testa. Já encontramos um componente com todos os atributos corretos que não abria pelo teclado.

10. Vale a pena pedir o layout pronto?
Para explorar caminhos, sim. Para definir a direção visual, não. O modelo devolve a média do que existe na internet, e é por isso que tantos produtos recentes se parecem. Direção visual sai da marca e do design system, definidos antes; a IA é boa aplicando uma direção e fraca escolhendo uma.

11. Quanto tempo o ChatGPT economiza em um projeto de produto?
O ganho é grande onde há volume repetitivo (leitura de material, texto de interface, alternativas) e pequeno onde o trabalho é decisão e integração. Na prática o tempo não desaparece, ele se desloca: menos produção, mais comparação e revisão. Quem mede só a produção acha que economizou mais do que realmente economizou.

12. Como a Duplo D usa isso em projeto de cliente?
Em quatro momentos, sempre com decisão humana: leitura do material bruto que o cliente já tem, geração de nomes e alternativas de fluxo, redação do texto de interface e revisão de consistência. Fora disso, a IA aparece como produto (agentes, automação com n8n, base de conhecimento), não como atalho de processo.


10. Resumindo o método

Use onde conferir é rápido. Cole o contexto real, sempre. Peça uma tarefa por vez, com formato definido e um limite escrito contra a invenção. Confira uma amostra antes de aceitar o todo. E mantenha fora da ferramenta o que não pode sair da empresa.

Nada disso é sobre a ferramenta. É sobre onde uma pessoa decide, e onde ela decidiu não decidir.

A gente constrói o que você imaginar.

Studio de IA em Curitiba, atendendo o Brasil todo por vídeo. Pesquisa, interface, código, agentes de IA e automação na mesma mesa.
Daniel Skroski

Daniel Skroski

Designer e desenvolvedor, fundador da Duplo D em Curitiba. Trabalha com UX, interface, front end e automacao com Inteligencia Artificial desde 2000.